Companhia aérea: o que os números oficiais mostram
Em agosto de 2026, a ANAC (a agência que regula a aviação no Brasil) registrou 70.019 voos nacionais previstos. Quase todos ficaram com três empresas: LATAM, Azul e GOL. Nos meses de agosto e setembro, essas mesmas três somaram 18.401 reclamações sobre viagem aérea no consumidor.gov.br (o site do governo federal onde a pessoa reclama direto com a empresa).
As cinco companhias, em ordem alfabética
Azul6.300
reclamações sobre viagem aérea no consumidor.gov.br, agosto e setembro de 2026
resolvidas*
76,5%
respondidas
100%
sem avaliação
49,9%
nota, de 1 a 5
3,88
resposta média
3,1 dias
avaliadas
3.159
voos nacionais, ago. 2026
23.672
saída +30 min
6,6%
cancelados
1,3%
Procon-SP 2025
40º lugar · 15% atendidas
* entre as reclamações que o consumidor avaliou. Voos: ANAC, conta nossa.
Preparado com carinho pela Equipe ComparaEmpresas · dados lidos em 17/10/2026
A gente juntou esses números com os de duas estrangeiras que voam muito daqui, a Copa e a TAP. Não damos nota e não fazemos ranking. A ordem é alfabética, cada número tem fonte e data, e o texto explica o que ele quer dizer e o que ele não quer dizer.
Os números lado a lado
Azul
Copa
GOL
LATAM
TAP
Reclamações sobre viagem (ago. e set. 2026)
6.300
200
5.493
6.608
469
Resolvidas, entre as que a pessoa avaliou
76,5%
27,1%*
52,0%
70,1%
18,8%
Tempo médio até a resposta
3,1 dias
7,1 dias
6,6 dias
3,3 dias
7,4 dias
Voos nacionais previstos (ago. 2026)
23.672
não opera
20.533
24.224
não opera
Saída com mais de 30 min de atraso, voo nacional
6,6%
6,3%
9,6%
Saída com mais de 30 min de atraso, voo internacional
13,0%
4,8%
7,5%
18,5%
15,2%
Aeroportos atendidos no Brasil
93
8
66
66
14
*Copa: só 70 reclamações avaliadas. É amostra pequena, e o percentual pode mudar muito com poucos casos.
Fontes: consumidor.gov.br, reclamações finalizadas de 1º de agosto a 30 de setembro de 2026, assunto "Aéreo"; ANAC, Voo Regular Ativo, agosto de 2026 (conta nossa sobre os voos realizados).
Se o que pesa para você é...
Chegar no horário num voo dentro do Brasil: no mês de agosto, 6,6% das saídas da Azul, 6,3% das da GOL e 9,6% das da LATAM passaram de 30 minutos de atraso. A diferença entre Azul e GOL é pequena; a da LATAM aparece mais.
Sair ou chegar numa cidade menor: a Azul pousou em 93 aeroportos brasileiros em agosto. GOL e LATAM, em 66 cada uma.
Resolver um problema depois da viagem: entre os casos que o próprio passageiro avaliou, a Azul teve 76,5% resolvidos e a LATAM, 70,1%. Na GOL, 52,0%.
Ir para a Europa: a TAP saiu do Brasil com mais de 30 minutos de atraso em 7,5% dos voos. No caminho de volta, em 23,9%.
Fazer conexão no Panamá: a Copa teve 4,8% de saídas com mais de 30 minutos de atraso, o menor número dos voos internacionais deste painel.
Nada disso decide sozinho. Preço, horário e rota decidem antes. O que os números fazem é mostrar o que costuma dar errado em cada empresa, para você saber o que olhar.
A viagem, parada por parada
A melhor forma de ler esses números é seguir a viagem do começo ao fim. Em cada parada existe uma regra da ANAC e um tipo de reclamação que aparece mais.
72 horas: a mudança de horário
Quando a empresa muda o seu voo de propósito (o que a regra chama de "alteração programada"), ela precisa avisar com pelo menos 72 horas. Se a mudança passa de 30 minutos num voo nacional, ou de 1 hora num internacional, e você não aceita o novo horário, tem direito a outro voo ou ao dinheiro de volta inteiro. Isso está na Resolução 400 da ANAC, de 2016.
Esse tipo de reclamação ("dificuldade para alterar o voo", no consumidor.gov.br) apareceu em 353 casos da Azul, 298 da GOL e 245 da LATAM em agosto e setembro. Não é o problema mais comum, mas é o mais fácil de evitar: quando o aviso chegar, responda logo e por escrito. Quem deixa para o dia do voo perde a escolha.
30 minutos: o atraso que a gente mede
A ANAC publica, voo a voo, a hora prevista e a hora real de cada partida e chegada. A gente contou quantos voos de agosto saíram mais de 30 minutos depois do previsto. Nos voos nacionais, o resultado foi:
Azul: 6,6% das partidas (e 2,9% com mais de 1 hora)
GOL: 6,3% (2,1% com mais de 1 hora)
LATAM: 9,6% (2,5% com mais de 1 hora)
Repare no detalhe. A LATAM tem mais atraso curto, entre 30 minutos e 1 hora. A Azul tem a menor parte de atraso acima de 15 minutos (11,5%, contra 14,7% da GOL e 21,0% da LATAM), mas a maior parte acima de 1 hora. Quem tem conexão apertada sente mais o atraso longo. Quem tem reunião no destino sente qualquer um.
Cancelamento é mais raro: 1,1% dos voos nacionais previstos da LATAM, 1,3% da Azul e 1,6% da GOL. Num mês, isso dá 273, 308 e 338 voos. A Azul Conecta, que voa para cidades menores com aviões pequenos e aparece separada na base da ANAC, cancelou 13,9% dos seus 1.258 voos previstos. Se a sua passagem tem um trecho da Conecta, vale saber disso antes.
1, 2 e 4 horas: o que a empresa deve no aeroporto
Voo atrasou ou foi cancelado? A empresa deve assistência, e ela cresce com o tempo de espera:
a partir de 2 horas, alimentação (o famoso "voucher");
a partir de 4 horas, hospedagem quando precisar passar a noite, e o transporte até ela.
Até 25 de outubro de 2026, existe ainda um degrau de 1 hora, que garante meios de comunicação (internet e telefone). A partir de 26 de outubro, entra em vigor a Resolução 813 da ANAC, que tira esse degrau de 1 hora e mantém os de 2 e 4 horas. A mesma resolução obriga a empresa a mostrar o aviso de atraso no aplicativo ou no site, com a hora da última atualização, e prevê o reembolso em até 7 dias das despesas que você pagou do bolso quando a empresa não conseguiu dar a assistência.
Tem mais uma mudança, e ela pesa. A Resolução 813 diz que a empresa não responde por danos em caso fortuito ou força maior (tempo fechado, aeroporto fechado pela autoridade, por exemplo). A assistência continua obrigatória nesses casos. O Procon-SP criticou essa parte da regra. Para você, na prática: o lanche e o hotel continuam devidos; a discussão sobre indenização fica mais difícil quando o motivo é o tempo.
E se o atraso passar de 4 horas, o voo for cancelado ou você for impedido de embarcar porque venderam mais lugares do que o avião tinha (o "overbooking", que a regra chama de preterição), a escolha é sua: outro voo, o dinheiro de volta ou outro meio de transporte.
10 quilos: a mala que sobe com você
A Resolução 400 fala em pelo menos 10 quilos de bagagem de mão. A mala despachada virou um "contrato acessório": pode vir ou não na tarifa, e pode ser cobrada à parte.
O problema é que o nome da tarifa muda de empresa para empresa ("light", "basic", "plus") e o que vem dentro de cada uma também muda com o tempo. Nosso conselho é simples: na tela de pagamento, procure a lista de peças incluídas e tire um print. Se no aeroporto disserem outra coisa, o print resolve a conversa.
Um exemplo que conferimos na página oficial da TAP: na classe econômica, ela aceita uma mala de mão de até 10 quilos (55 por 40 por 25 centímetros) e um item pessoal de até 2 quilos, que vai embaixo do assento da frente. As medidas das outras quatro empresas variam por tarifa e não estão neste painel.
7 e 21 dias: a esteira que não trouxe a mala
Mala extraviada tem prazo. A empresa precisa devolver em até 7 dias num voo nacional e em até 21 dias num internacional. Se não devolver, tem mais 7 dias para indenizar. E se a mala chegou rasgada ou quebrada, você tem 7 dias, a contar do recebimento, para reclamar do dano. Faça o registro ainda no aeroporto, no balcão da empresa, antes de sair da sala de desembarque.
Extravio e avaria apareceram em 668 reclamações da LATAM, 447 da GOL e 441 da Azul. Nas duas estrangeiras, o assunto sobe na lista: é o primeiro problema da Copa (16,0% das reclamações) e o segundo da TAP (13,9%). Faz sentido: viagem longa, conexão e troca de avião dão mais chance de a mala ficar no caminho.
13,9%: a taxa para mudar de ideia
Este é o número que mais surpreende. O problema mais registrado da Azul não é atraso nem cancelamento. É "cobrança indevida ou abusiva para alterar ou cancelar o contrato": 876 casos, 13,9% de tudo o que se reclamou da empresa em dois meses. Na GOL, o mesmo problema também está em primeiro, com 12,2%. Na LATAM, aparece em terceiro, com 10,5%.
Isso diz mais sobre a passagem do que sobre o voo. Tarifa barata costuma ter multa alta para remarcar ou cancelar. Antes de comprar, leia a regra de alteração da tarifa escolhida. Se a sua data ainda não está firme, às vezes a tarifa um pouco mais cara sai mais barata no fim.
Logo depois vem o reembolso, a demora para devolver o dinheiro. É o primeiro problema da LATAM (857 casos, 13,0%) e da TAP (86 casos, 18,3%), e está entre os três primeiros nas cinco empresas.
100%: a resposta que não é solução
As cinco empresas responderam todas as reclamações do período. Isso é bom, mas não quer dizer que resolveram. Quando a empresa responde, a pessoa pode avaliar se o problema foi resolvido e dar uma nota de 1 a 5. Cerca de metade não avalia (49,2% na LATAM, 49,9% na Azul, 53,1% na GOL, 59,3% na TAP e 65,0% na Copa).
Entre os que avaliaram, a parte resolvida varia muito: de 18,8% na TAP a 76,5% na Azul. A nota que o passageiro deu, na média, segue o mesmo desenho: 3,88 na Azul, 3,60 na LATAM, 2,96 na GOL, 2,14 na Copa e 1,73 na TAP. O tempo médio de resposta também: pouco mais de 3 dias na Azul e na LATAM, entre 6 e 7 dias e meio na GOL, na Copa e na TAP.
Um dado ajuda a entender quem chega ao site do governo: perto de 9 em cada 10 pessoas disseram que procuraram a empresa antes de reclamar ali (de 86,3% na Azul a 91,7% na TAP). Ou seja, o consumidor.gov.br costuma ser a segunda tentativa, não a primeira.
Os dois lados do oceano
Copa e TAP não fazem voo dentro do Brasil. Elas entram aqui porque foram as companhias estrangeiras de grupo próprio com mais voos regulares previstos de e para o Brasil em agosto de 2026. A LATAM do Chile teve mais voos, mas é do mesmo grupo da LATAM brasileira, e por isso ficou de fora.
Nas duas, o número de reclamações é bem menor (200 na Copa, 469 na TAP), porque elas voam muito menos de e para o Brasil. Por isso olhar o total não ajuda. O que ajuda é ver o tipo de problema e o que aconteceu depois. Na TAP, o primeiro grupo de queixas é cobrança e contestação de valores, e não a qualidade do serviço, como nas três brasileiras. Na Copa, a mala lidera a lista, e aparece um problema que nenhuma brasileira tem entre os oito primeiros: o passageiro impedido de embarcar porque venderam lugares demais, com 9 casos. Lembre que, na Copa, cada percentual se apoia em poucos casos.
No horário, a diferença está no sentido do voo. A TAP saiu do Brasil com mais de 30 minutos de atraso em 7,5% dos voos e voltou de Lisboa com esse atraso em 23,9%. A Copa ficou perto de 5% nos dois sentidos. A LATAM, que também voa para fora, teve 18,5% de saídas internacionais com mais de 30 minutos, quase igual na ida e na volta.
E o Procon-SP?
O Procon de São Paulo publica todo ano a lista das empresas mais reclamadas no estado. Na de 2025, divulgada em março de 2026, a LATAM ficou em 35º lugar (1.260 reclamações, 21,5% atendidas) e a Azul em 40º (1.064 reclamações, 15,0% atendidas). GOL, Copa e TAP não aparecem entre as 50 primeiras. A lista é de um estado só e de outro ano, então serve de contexto, não de comparação direta com os números de agosto e setembro.
De onde vem cada número
Reclamações: base pública do consumidor.gov.br, reclamações finalizadas de 1º de agosto a 30 de setembro de 2026, segmento "Transporte Aéreo", assunto "Aéreo". Ficaram fora programa de fidelidade, seguro viagem, carga e pacote turístico.
Atraso e cancelamento: base Voo Regular Ativo da ANAC, agosto de 2026, atualizada em 7 de outubro. O percentual de cancelados é sobre os voos previstos; o de atraso, sobre os voos que de fato saíram.
Procon-SP: Cadastro de Reclamações Fundamentadas 2025.
Regras: Resoluções 400/2016 e 813/2026 da ANAC.
O que os números não contam
Quantas pessoas voaram. Sem o número de passageiros, não dá para dizer quem reclama mais por viagem. A LATAM tem mais reclamações, mas também tem mais voos nacionais (34,6% do total do país em agosto).
Setembro nos voos. Quando fechamos este painel, a ANAC ainda não tinha publicado a base de setembro. Os números de atraso são de um mês só.
O preço. Passagem muda de valor por hora. Nenhum número daqui diz qual empresa é mais barata.
A mala de cada tarifa. As regras de bagagem de cada empresa mudam por tarifa e por data de compra. Confira na hora de pagar.
O seu voo. Média de um mês não prevê o dia da sua viagem. Ela só mostra onde o risco costuma estar.